Dcvmais's Blog

Elementos básicos

Publicado por: dcvmais em: Março 12, 2009

Comunicação Visual

Sendo um  meio de comunicação expresso com a utilização de componentes visuais (imagens, desenhos, gráficos…), a comunicação visual é bastante abrangente e, como tal, sempre que nos referimos ao desenvolvimento de um projecto falamos antes em Design Visual.

Ora, para que  mensagem seja descodificada tem de haver toda uma estrutura que torne visual o que tentamos comunicar. É chegado o momento de entrarem em acção os elementos básicos da comunicação visual: o ponto, a linha, a forma, a direção, o tom, a cor, a textura, a dimensão, a escala e o movimento.

ponto é a unidade de comunicação visual mais simples e irredutivelmente mínima. Quando vistos, os pontos ligam-se, sendo, portanto, capazes de dirigir o olhar, mas também capazes de criar a ilusão de tom ou cor, quando utilizados em grande número. Quando os pontos estão tão próximos entre si que até se torna impossível identificá-los individualmente, aumenta a sensação de direcção e a cadeia de pontos transforma-se noutro elemento visual distintivo: a linha.

Nas artes visuais, a linha tem, por sua própria natureza, uma enorme energia. Nunca é estática mas sim um elemento visual inquieto. é o meio de apresentar de forma palpável aquilo que ainda só existe na imaginação. Tem um cariz fluido e linear que reforça a liberdade de experimentação, é decisiva, tem um propósito, é rigorosa e  é técnica, tornando-se num meio indispensável para tornar visível o que não pode ser visto, por existir apenas na imaginação.

A linha descreve uma forma e articula a complexidade da forma. O quadrado, o círculo e o triângulo são as principais formas, estando-lhes associados aspectos característicos. O quadrado é visto como o detentor da honestidade, da rectidão e do esmero. Já o triângulo é tido em conta como representante da ação, do conflito e da tensão. Por sua vez, o círculo é a forma do infinito, da cordialidade e da protecção.

Todas as formas básicas expressam três direcções visuais básicas e significativas: ao quadrado associa-se as direcções horizontal e a vertical,  ao triângulo a diagonal e ao círculo a curva. A direcção horizontal-vertical constitui a referência primária do homem, em termos de bem-estar e maneabilidade. Já a direcção diagonal tem referência directa com a ideia de estabilidade. É assim a formulação oposta, a força direccional mais instável e, consequentemente, mais provocadora das formulações visuais. Relativamente às forças direccionais curvas têm significados associados à abrangência, à repetição e à cordialidade.

O mundo em que vivemos é dimensional e o tom é um dos melhores instrumentos de que dispõe o visualizador para indicar e expressar essa dimensão. Quando observamos a tonalidade na natureza, vemos a verdadeira luz. Todavia, quando falmos de tonalidade em artes gráficas fazemos referência a algum tipo de pigmento que se usa para simular o tom natural. Para além disso, se na natureza existem centenas de gradações de tons específicos, nas artes gráficas essas gradações são muito limitadas. Mesmo assim, o tom é um elemento-chave para dar ênfase à perspectiva e realçar o poder da linha, nas tentativas de simular a distância, a massa, o ponto de vista, o ponto de fuga, a linha do horizonte, o nível do olho, etc.

A cor está de facto impregnada de informação e é uma das mais penetrantes experiências visuais que temos todos em comum. Constitui, portanto, uma fonte de valor inestimável para os comunicadores visuais. No meio ambiente compartilhamos os significados associativos da cor das árvores, da relva, do céu, da terra e de um número infinito de coisas nas quais vemos as cores como estímulos comuns a todos. A tudo relacionamos um significado e  cor tem diversos significados associativos e simbólicos, oferencendo um vocabulário enorme e de grande utilidade para uma instrução visual.

textura é o elemento visual que com frequência serve de substituto para as qualidades de outro sentido, o tacto. Na verdade, podemos apreciar e reconhecer a textura tanto através do tacto quanto da visão, ou ainda mediante uma combinação de ambos. A textura relaciona-se com a composição de uma substância através de variações mínimas na superfície do material.  Este elemento deveria funcionar como uma experiência sensível e enriquecedora, porém é ainda vísivel, por exemplo, nas lojas avisos para  ”não tocar” , o que condiciona de imediato o nosso comportamento e que nos leva a evitar qualquer toque, qualquer aproximação que nos permitisse sentir, apalpar, conhecer a textura.

Todos os elementos visuais são capazes de se modificarem e se definirem uns aos outros. O processo constitui, em si, o elemento daquilo a que chamamos de escala. No campo visual, seria a relação de dimensões entre duas ou mais formas. Em termos de escala os resultados visuais são fluidos e não absolutos, pois estão sujeitos a modificações das variáveis. Sendo assim, o grande não pode existir sem o pequeno, porém quando se estabelece o grande através do pequeno, a escala toda pode ser alterada pela introdução de outra modificação visual. A escala pode também ser estabelecida através das relações com o campo ou com o ambiente. Aprender a relacionar o tamanho com o objetivo e o significado é essencial na estruturação da mensagem visual. O controlo da escala pode fazer uma sala grande parecer pequena e aconchegante e uma sala pequena parecer aberta e arejada.  Esse efeito estende-se a toda a manipulação do espaço, por mais ilusório que possa ser.

A representação da dimensão em formatos visuais bidimensionais também depende da ilusão. A dimensão existe no mundo real, porém reforçamos a ilusão no campo visual ao desenharmos, pintarmos etc. O principal artifício para simulá-la é a convenção técnica da perspectiva. A dimensão real é o elemento dominante no desenho industrial, no artesanato, na escultura, na arquitetura e em qualquer material visual em que se lida com o volume total e real. Esse é um problema de enorme complexidade e requer capacidade de pré-visualizar e planear em tamanho natural. Apesar de nossa experiência humana total estabelecer-se em um mundo dimensional, tendemos a conceber a visualização em termos de uma criação de marcas, ignorando os problemas especiais da questão visual que nos são colocados pela dimensão.

Como no caso da dimensão, o elemento visual do movimento encontra-se mais frequentemente implícito do que explícito no modo visual. A sugestão de movimento nas manifestações visuais estáticas é mais difícil de conseguir sem que ao mesmo tempo se distorça a realidade, mas está implícita em tudo aquilo que vemos, e deriva de nossa experiência completa de movimento na vida. As técnicas, porém, podem enganar o olho. O milagre do movimento como componente visual é dinâmico. Um quadro, uma foto ou um estampado de um tecido podem ser estáticos, mas a quantidade de repouso que compositivamente projectam pode implicar movimento, em resposta à dedicação e à intenção que o artista teve ao concebê-los.

Todos estes elementos têm como potencial transmitir informações de forma fácil e directa, mensagens que podem ser apreendidas com naturalidade por qualquer pessoa capaz de ver. A linguagem separa e nacionaliza, enquanto que o visual unifica. A linguagem é complexa e difícil e o visual tem a velocidade da luz, podendo expressar instantaneamente um grande número de ideias.

Os elementos comunicam mas é necessário que o receptor seja capaz de os perceber, uma vez que segundo Ann Marie Barry ” ver e entender não é a mesma coisa”. Assim sendo, a percepção deve ser trabalhada e desenvolvida para que adquiramos uma inteligência visual e possamos usufruir do “momento instantâneo que dá sentido a todo sentimento de algo díspar”, conclui a autora.

 

Elementos básicos em Henri Matisse

Reconhecido como um dos grandes pintores dos primórdios do século XX, Henri Matisse foi uma das principais figuras da corrente artística francesa, o Fauvismo.

A pintura, sendo uma arte, comunica connosco através de traços artísticos, traços estes que vão de encontro aos elementos básicos da comunicação visual. Matisse, como outros artistas do movimento, rejeitava a luminosidade impressionista, e usava a cor como factor principal da pintura, levando-a às últimas consequências. Nas suas pinturas gostava de motivos repetitivos, usava formas curvas e cores variadas.

” A arte de Matisse era feita para decorar a vida dos homens”       Argan

 Assim sendo, as obras de Henri Matisse são um  bom exemplo para analisarmos de que forma estes elementos conseguem trazer até nós a mensagem do pintor.

 

clip_image002

 La Dance é reconhecida como um ponto-chave da carreira de Matisse e no desenvolvimento da pintura moderna, refletindo a incipiente fascinação do pintor pela arte primitiva.

As intensas cores quentes chocam-se contra a frieza do fundo verde e azul, criando uma sensação rítmica através da sucessão de nus dançantes e transmitindo os sentimentos de libertação emocional e do prazer imediato.

A cor é o elemento que mais se destaca, permitindo-nos separar os planos da pintura. A união dos nus dançantes, a sua posição no enquadramento da obra, bem como o recurso às linhas curvas dão a ilusão de movimento e dinâmica à dança das silhuetas humanas.

clip_image001

Em Les huîtres Matisse testou a sua maestria relativamente à cor: contrastou castanhos, púrpuras e rosas velhos com tonalidades mais ácidas como o amarelo e o verde.

Para rematar ”suavizou” a composição visual com rosas claros e beges secos, no segundo-plano, levando-nos a tomar o quadro como uma obra-prima do fauvismo.

A forma foi aqui aproveitada intensamente e, em simultâneo com a cor, resultou em diversos planos. Os sombreados e o contraste entre linhas curvas e rectas enriquecem a obra, que reunem e  associam os diversos elementos básicos.

clip_image0001

Louças e Frutas constitui uma prova de que antes do escândalo «fauve» Matisse já o era. É uma obra que reúne extrema expressividade e vigor e até porque não arriscar, dizendo que sobressai um certo rigor.

Embora com uma paleta de cores pouco extensiva, resumindo-se a cores mais escuras e até mais quentes, que variam entre o azul, o roxo, o vermelho e o verde-escuro, a obra não carece de impacto.

O que mais cor dá ao quadro é sem dúvida a fruta mas também a jarra em cerâmica, que se encontra mais no fundo da composição e contrasta vigorosamente o seu laranja com o roxo da parede. Para revitalizar o espírito “fauve” , o pintor socorre-se das pinceladas livres, enérgicas, agressivas e de um “esborratar” da cor, Matisse traz até nós mais uma obra repleta de elementos básicos da comunicação visual, que transparecem a frescura e a vitalidade campestre e da época primaveril.

 

Num âmbito geral, as suas obras chamam a atenção pela frequente presença humana, seja com traços exagerados ou com traços mais simples e lineares, ou seja, mais realísticos.

Outro dos aspectos que mais salta à vista é a cor. Matisse aposta nas cores fortes que, na maior parte das vezes, não correspondem ao real. Relativamente às linhas encontra-se um pouco de tudo. Ora numa obra sobressaem as linhas curvas, ora noutras destacam-se as linhas rectas que dão forma a quadrados, rectângulos, triângulos. Observa-se também uma oposição entre linhas mais grossas e outras mais finas, sem esquecer o contraste entre figuras e formas tridimensionais.

Se no início apostou nas linhas rectas e formas geométricas, mais tarde o seu estilo ficou mais solto, adoptando as figuras femininas e o interior como os seus principais temas, trabalhados em estilo livre e com cores decorativas. São sem dúvida obras que “enchem a vista” , na medida em que o espaço é totalmente preenchido pelos traços artísticos do pintor (sem esquecer os pormenores simétricos).

Na época em que foram concebidas, as pinturas de Matisse eram consideradas escandalosas, “ultra-modernas”, umas feras, escrupulosas. Mas Matisse ia dando largas à experimentação e aproveitando a sua fértil imaginação. Ele preferia, sem demais, um tipo de pintura concreta, óbvia e, mais que tudo, objectiva, que tanto um homem de letras como um trabalhador do proletariado mais miserável pudessem compreender fácil e rapidamente.

Assim, uns tinham-no como “o prestigiador e manipulador de tons decorativos mais notado do nosso [deles] tempo”, o “grande sucessor” de Corot, Renoir e mesmo de Ingres. Outros diziam que Matisse nasceu para ser o perigoso seguidor de Vincent van Gogh. Outros ainda, descontentes e desconcertados, perguntavam para onde tinha ido o temível “fauve”. A verdade é que a par da arte cubista, as suas obras constituiam o mais inovador que se fazia na arte europeia.

Neste artigo ficou subjacente a importância dos elementos básicos da comunicação visual como imagem que transporta a mensagem do artista. Na pintura, é visível a sucessão de elementos que, ao trabalharem em conjunto, criam uma composição que tanto se pode destacar pela simplicidade como uma composição que ocupa todo um espaço, mas que não menospreza o objectivo inicial: comunicar.

Os elementos básicos têm inúmeras formas de serem trabalhados e só aguardam pelo espírito criativo e inteligência visual de quem deles se socorre para transpirarem a sua essência. Saber dar-lhes o melhor uso é necessário não ter medo de experimentar, de não nos retrair-mos e deixarmo-nos ficar pelo básico, pela imagem imediata que temos dos elementos.

Ir mais além, descobrir a polivalência dos elementos e tê-los como uma opção futura para os nossos projectos é o intuito desta análise e desta proposta de trabalho, que nos levou a observar com mais atenção a presença destes elementos no nosso quotidiano e nos proporcionou transformar os sentimentos intrínsecos em “Broken Strings” numa composição visual.

 

 

  Referências bibliográficas:

 
 
 

2 Respostas para "Elementos básicos"

Estimada Maria,

Tal como referi no email vou precisar de mais algum tempo para comentar com cuidado o artigo editado. Todavia, e numa leitura (breve), parece-me uma abordagem interessante mas demasiadamente focada na personagem – Henri Matisse. Muito embora refira o Fauvismo que, naturalmente, se relaciona com os elementos e técnicas da comunicação visual. Talvez aprofundasse mais esse aspecto!!
Julgo que o meu email de hoje (com os parâmetros de apreciação) poderá ajudar! ;)

Continuação de um bom trabalho!
Bruno Giesteira

Estimada Maria,

Reafirmo o meu comentário anterior.
-
Pretende-se que o artigo reflicta (em detrimento de uma análise mais biográfica…) um discurso crítico construído com base nas matérias abordadas na aula teórica (Elementos e técnicas da comunicação visual).
-
Sugiro o recurso à leitura da já nossa conhecida Donis Dondis; Rudolf Arnheim; Bruno Munari; et. al. Alguns dos autores que se dedicaram à sintaxe da imagem e, consequentemente, à alfabetização ordenada da linguagem visual.
-
Nota: E porque não aproveitar o weblog para editar a componente prática da disciplina?…

Continuação de um bom trabalho,
Bruno Giesteira

Deixar uma resposta

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Modificar )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Modificar )

Connecting to %s


    • Bruno Giesteira: Estimada Maria, O trabalho teórico sobre a tipografia/letra como elemento "imagético" vai de encontro aos objectivos do desafio lançado na aula:
    • Bruno Giesteira: Estimada Maria, Reafirmo o meu comentário anterior. - Pretende-se que o artigo reflicta (em detrimento de uma análise mais biográfica...) um d
    • Bruno Giesteira: Estimada Maria, Tal como referi no email vou precisar de mais algum tempo para comentar com cuidado o artigo editado. Todavia, e numa leitura (brev

    Categorias

    Seguir

    Get every new post delivered to your Inbox.